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O que é isto?
Ônfalo
 

Pequeno esclarecimento

Ônfalo vem do grego omphalós, que quer dizer umbigo.

Escolhi essa palavrinha para batizar este pequeno caos aqui justamente para não fugir do fato de que um blog, antes de tudo, é um exercício de literatura umbiguista. E umbigo é umbigo, embora, claro, haja alguns mais belos que outros.

De qualquer modo, criei o Ônfalo para publicar pequenas crônicas e fragmentos literários. Pouco falarei de mim mesmo, do meu cotidiano ou das minhas neuras. Esse tipo de coisa eu guardo para a minha psicanalista, coitada, que é obrigada a me ouvir.

Achei que era importante esclarecer esses detalhes porque, apesar do post anterior, não tenho a menor intenção de me jogar pela janela, tá legal? Aquilo é só o comecinho de um conto inacabado.

Sigamos agora a programação normal.



 Escrito por Max Mallmann às 12h57 [] [envie esta mensagem]



Querida Vishna:

 

Hoje, segunda-feira, 5 de fevereiro, decidi me jogar pela janela.

São quase nove horas da noite e, pensando bem, vou ser mais exato. O relógio do computador marca 20:42h.

Escrevo para te dizer o óbvio. Apesar de mim e apesar de você, eu te amo. É esse o motivo do bilhete ser destinado a você, e não, sei lá, ao zelador do prédio, coitado, que vai ter que lavar as lajotas sujas de sangue.

Vishna, eu vou te amar pelo resto da minha vida.

O resto da minha vida, pelos meus cálculos, é um espaço de tempo de mais ou menos quinze minutos. Tudo o que tenho de fazer é terminar este bilhete no computador, imprimir, assinar — pra você ter certeza de que fui eu mesmo que escrevi —, colocar o bilhete num envelope com o teu nome e o número do teu telefone, descer até o térreo, entregar o envelope pro zelador (aquele mesmo que vai ter que lavar as lajotas), voltar pra cá, subir no parapeito e me jogar.

Tá, sei que isso é meio degradante. Eu devia escrever o bilhete a mão. Seria mais nobre. Mais digno. E teria um certo charme retrô. Só que anos e anos batucando no teclado arruinaram a minha caligrafia. Deixarei ao mundo a minha ignomínia, não os meus garranchos.

O suicídio deve ser alguma coisa muito condenável na tua religião — continua a mesma, ou você já trocou? De qualquer forma, acho que poucas religiões acreditam que suicidas são gente legal.

Pensando bem, há monges budistas que tacam fogo no próprio corpo. E os japoneses têm o haraquiri. Claro, também não dá pra esquecer de todas as seitas que juram que o apocalipse chega depois de amanhã. Os fiéis se reúnem numa comunidade alternativa e aparecem mortos no telejornal do dia seguinte.

O que eu quero dizer, Márcia, ou melhor, Vishna, é que continuo tão ateu quanto naquele final de tarde em que te conheci no Bracarense.

Nossa história de amor começou no botequim, terminou no shopping center e agora estou aqui, diante do computador e da minha vida inteira, no décimo andar, ao lado da janela, pronto para morrer.

Na hora da morte, pensei em você.

Ninguém tem culpa de nada.

Assim que terminar o joguinho de paciência e dar uma olhada nos meus e-mails, eu me jogo.

Adeus.



 Escrito por Max Mallmann às 23h17 [] [envie esta mensagem]



Ultra story-lines

Numa das muitas listas de discussão por e-mail das quais participo, alguns amigos e eu estávamos bolando "ultra story-lines" (ou microrresumos) de peças, romances, contos e filmes famosos.

É um exercício interessante para roteiristas, e prova a minha velha tese de que apenas uma boa idéia não é tudo.

Abaixo, seguem algumas "ultra story-lines" feitas, ou por mim, ou por amigos como o Fábio Fernandes e o Octavio Aragão.

MOBY DICK:

Perneta maluco enfrenta baleia. A baleia vence.

ÉDIPO REI:

Filho mata pai, come a mãe e arranca os próprios olhos.

HAMLET:

Príncipe de país nórdico vê fantasma do pai, passa horas falando sozinho, enlouquece e mata todo mundo.

OTELO:

Negão paranóico esgana mulher.

ULISSES, de James Joyce:

Marido corno perambula por Dublin.

NOVO TESTAMENTO, da Bíblia:

Filho de carpinteiro é pregado numa tábua.

VELHO TESTAMENTO:

Três mil anos de violência e sexo na Palestina.

ILÍADA

Cidades entram em guerra por causa de boazuda.

ODISSÉIA

Marujo passa dez anos arranjando pretextos para não voltar pra casa.

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

Jagunço de fala enrolada se apaixona por jagunça lésbica.

A DIVINA COMÉDIA

Homem vai pro inferno atrás de mulher que não quer dar pra ele.

2001 - UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO, o filme:

Macaco joga osso pra cima. Osso vira espaçonave.

O FALCÃO MALTÊS, de Dashiel Hammet:

Caras durões se matam uns aos outros por causa de passarinho.

QUALQUER COISA DO RAYMOND CHANDLER:

Detetive passa o livro fugindo de várias mulheres gostosas enquanto corre atrás de um homem.

DRÁCULA:

Aristocrata romeno pervertido ataca virgens inglesas. Em represália, cinco cavalheiros vitorianos resolvem empalar o tarado.

O GATO PRETO, de Edgar Alan Poe

Homem mata mulher e é denunciado por gato caolho.



 Escrito por Max Mallmann às 18h16 [] [envie esta mensagem]



Algumas reflexões a respeito de blogs e literatura:

No final dos anos 80, quando lancei meu primeiro livro, era difícil pra carácoles publicar o que quer que fosse. Se você era jovem e não tinha amigos influentes, precisava bancar os custos da edição ou ganhar algum concurso. Em 1989 eu tinha 20 anos, era desconhecido e não tinha grana, daí precisei ganhar o tal do concurso. A minha sorte foi ter nascido no Rio Grande do Sul, pois lá, bem ou mal, sempre houve um mercado literário e os concursos viviam pipocando.

Hoje é incomparavelmente mais fácil. No Rio de janeiro, em São Paulo ou em Porto Alegre há, sem exageros, dezenas de editoras pequenas e médias, loucas por jovens autores, e mesmo nas grandes, como a Rocco ou a Planeta, existem olhos atentos para novidades.

Por outro lado, embora seja mais fácil publicar, talvez seja cada vez menos necessário publicar, porque hoje temos a internet e os blogs.

A pergunta é: quem escreve num blog ganha o quê?

Dinheiro, jamais. No máximo, algum patrociniozinho furreca. Mas quem publica livros, na quase totalidade dos casos, não ganha o suficiente nem pra pagar o consumo de energia elétrica do computador. E, de mais a mais, quem entrou nessa de querer escrever não está ligando muito pra dinheiro. Quem quer dinheiro que vá trabalhar na Bolsa de Valores.

Prestígio? Até pouco tempo atrás (um ano? dois?), ter um livro publicado por uma boa editora dava prestígio, e escrever num blog era uma espécie de onanismo intelectual. Hoje isso mudou. Há blogueiros que já se tornaram pequenas celebridades. São lidos, citados e comentados. Claro que, por enquanto, o público leitor de um blog, por melhor que seja o blog, é composto apenas por gente que também possui blogs. Ou seja, os blogueiros ainda escrevem somente uns para os outros. Mas isso tende a mudar. E bem possível que, agora mesmo, dúzias de teses e monografias a respeito dos blogs e de seus autores estejam fervilhando na cabeça de alunos de mestrado e doutorado.

Já faz tempo que o bom e velho livro de papel não é mais o que se poderia chamar de fenômeno de massa. Basta lembrar que uma edição, mesmo numa editora grande, atinge no máximo dois ou três mil exemplares. Quem vende cinco mil já pode se considerar best-seller.

A única objeção que ainda se poderia levantar à literatura veiculada em blogs é que eles não possuem qualquer tipo de, a falta de expressão melhor, de controle de qualidade. O dono de um blog escreve o que bem entende, e não há nenhum revisor que apare vírgulas em excesso e emparelhe as concordâncias; não há nenhum editor que reclame de falta de ritmo ou de frouxidão estrutural. O risco dessa ausência de, para usar outra expressão não muito adequada, de pré-leituras, é a prolixidade. Se não há ninguém dizendo no ouvido do autor “corta, reescreve, corta, reescreve”, o texto pode ficar palavroso demais, torto, desengonçado, amadorístico.

Mas, novamente, os blogs trazem outro paradigma: o verdadeiro editor de um blog é o público. E, quando esse público deixa de ser composto apenas pelos amigos do autor, acaba o reinado da condescendência. O leitor da internet, cada vez mais cheio de opções e mais vazio de tempo, tende a se tornar bastante exigente e específico em suas demandas. É simples assim. Blogs mal escritos não são lidos. Blogs não lidos morrem. Charles Darwin também entendia de internet.

Assim, longa vida aos blogs. Que sejam eternos em sua efemeridade.



 Escrito por Max Mallmann às 18h09 [] [envie esta mensagem]



Blues disléxico

Baby

Bebi

Baby, bebi too much

Acordei com torcicolo

Wake up

Engov

Encolhido no sofá

So sad

Pra onde você vai, baby

Pra onde você vai love you

I love e o telefone não tocou.

I love you so

I love you sou um bosta, eu sei

I’m sorry to say

Com a ressaca nos olhos

Vendo tudo blues

Sem você

No sofá

So far away



 Escrito por Max Mallmann às 00h40 [] [envie esta mensagem]



Mondo cane

Se eu fosse escrever um conto policial

 

           Spaniel é meu nome. Cocker Spaniel. Sou detetive particular. Eu e meu sócio, Fox Terrier, temos uma pequena sala no centro, com telefone, secretária e revistas velhas na sala de espera. Nossa especialidade são maridos paranóicos e mulheres cachorras. Adoro essa gente. Mentira, eu os desprezo, mas eles pagam nosso aluguel. Um detetive jamais passará fome enquanto existir no mundo gente que trepa mal, goza pouco e precisa achar alguém para culpar por isso.

Meu trabalho não é tão glamuroso quanto as pessoas pensam. Claro que já arrisquei a vida uma dúzia de vezes. Também estive a ponto de ser preso e de ter a minha licença cassada. E quase fui jogado do alto da Ponte Rio-Niterói com um paralelepípedo amarrado na gravata. Tudo bem, se esse é o seu conceito de glamour, você devia ver menos filmes do Humphrey Bogart e mais do Fred Astaire.

Naquela segunda-feira de manhã, quando meus miolos boiavam como pedaços de limão na caipirinha do domingo à noite, ela chegou. Ela. Nunca soube como se chamava. O nome que ela me deu era falso. O cheque que ela assinou era frio. Mas, em minha defesa, devo dizer que os peitos eram verdadeiros e o sangue era quente. Ela era uma fêmea no cio, e eu, naquela manhã de ressaca, era apenas um lobo velho cansado de uivar para a lua.



 Escrito por Max Mallmann às 00h37 [] [envie esta mensagem]



Telão e telinha

Em Sunset Boulevard (ou Crepúsculo dos deuses, no título brasileiro), do pai-de-todos-nós Billy Wilder, há uma cena em que o personagem do Willian Holden explica o que é ser roteirista. Não vou lembrar das palavras exatas, mas ele diz algo mais ou menos do tipo: "A gente passa o dia inteiro escrevendo os diálogos dos atores e atrizes, mas o público pensa que eles falam tudo de improviso".

O personagem era roteirista de cinema, mas o que ele diz vale também — e muito — para os roteiristas de TV. O roteiro é imprescindível na criação de qualquer obra audiovisual que queira ter pé e cabeça, mas o roteiro, ele mesmo, não é nem áudio e nem visual. É texto. Palavras. Bits.

Ao contrário de um texto literário ou mesmo de uma peça de teatro, um roteiro não tem vida própria. Um roteiro de audiovisual não é a obra. É um meio para se chegar à obra. É um manual de instruções a ser seguido pelo diretor, produtores, atores, iluminadores, e mais uma infinidade de outros profissionais.

Um roteiro para a tela grande é muito parecido com um roteiro para a miríade de telinhas pequenas. No entanto, há diferenças. A televisão é prima do cinema, porém é filha do rádio. Quando você, querido leitor, vai ao cinema, você paga ingresso e senta numa sala escura, diante de um telão imenso. Como espectador de cinema, portanto, o seu tempo de atenção é razoavelmente longo. Você está preso naquela sala. E só existem duas possibilidades de você sair correndo antes dos créditos finais: se o filme for muito ruim ou se o cinema estiver pegando fogo.

Como espectador de TV, ao contrário, meu amigo leitor, o seu tempo de atenção é curtíssimo. A televisão é um eletrodoméstico. Você chega em casa, liga, vai ao banheiro, volta, dá uma olhadinha, resolve ir à cozinha fazer um lanche, ou então pega o controle remoto e exercita a musculatura do polegar, fazendo zaping.

Um programa de TV tem, no máximo, uns dez segundos para captar a sua atenção. E como se faz isso? Com belas imagens, sim. Mas, principalmente, com diálogos.

É sempre arriscado fazer longas cenas de ação sem diálogos em programas de TV. O espectador que acabou de ligar a televisão fica sem ter a menor idéia do que está acontecendo. E muda de canal. Para evitar essa fuga do público e mostrar direitinho o que está acontecendo, os personagens precisam falar o tempo todo. Se for absolutamente imprescindível incluir uma longa cena de ação sem falas, bom, aí é aconselhável escrever no roteiro um recadinho do tipo atenção sonoplastia: música-tema do personagem, e torcer para que a melodia preencha os buracos de silêncio.



 Escrito por Max Mallmann às 01h40 [] [envie esta mensagem]



Difícil é aprender a não escrever

Vamos lá. O meu método, ou não-método, de trabalho sempre foi baseado numa mistura de ócio e desperdício. Ter uma idéia, abrir um arquivo no computador e fazer umas anotações quando desse vontade, daí um dia rever as anotações e, lá pelas tantas, começar a escrever de verdade. O brabo é que nunca me dei bem com contos. Escrevi poucos, e não gosto muito de nenhum deles. As idéias que tenho servem melhor para novelas ou romances. E só começo a escrever se estou absolutamente apaixonado pela história. Mas nem sempre essas paixões duram muito. O mais comum era escrever duas, cinco, dez ou cinqüenta páginas e, de repente, perceber que não era bem aquilo. Quando isso acontece, desisto, com alguma dor, mas sem dó. Acredito que quem escreve não pode ter medo da lixeira. Tem que jogar muita coisa fora. Ou, pelo menos, deixar os projetos falhados mofando no fundo do HD.

Geralmente, quando começo a escrever vejo com muita clareza a ambientação, o universo da história. Também vejo os principais personagens, mas com contornos não tão nítidos. E tenho uma vaga idéia do final. Até que, depois de tantas e tantas páginas, se a idéia sobrevive, eu tenho um estalo e escrevo num jorro uma sinopse capítulo a capítulo do restante da história. Geralmente, esses insights vêm no meio da noite.

O caos e a autocrítica sempre me fizeram escrever relativamente pouco e não ter pressa em publicar. Fiz a primeira redação do "Síndrome de quimera" em 1998. Cinco meses escrevendo, um ano e pouco revisando. O livro foi publicado no Brasil em 2000, pela Rocco. E, em 2003, saiu na França, pela Gallimard. Nesse meio tempo, me tornei roteirista de TV. Acabou-se o ócio e o desperdício. Passo o dia escrevendo roteiros, naquele esquema de faz-e-manda.

Mesmo assim, cavando horas vagas onde elas não existiam, escrevi "Zigurate", um romance feito a partir de uma idéia que vinha me perseguindo há alguns anos. Pesquisei por uns oito meses, escrevi a primeira redação em seis. "Zigurate" saiu em outubro de 2003 e foi bem recebido pela crítica.

Tá. Comecei o blog. Vendi minha alma ao modismo. Ah, fazer o que, né? O chato é se vender e ninguém querer comprar.



 Escrito por Max Mallmann às 01h40 [] [envie esta mensagem]




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